quinta-feira, 7 de abril de 2016

OS QUERANDIS E A PRIMEIRA BUENOS AIRES: uma lição sobre a arrogância europeia

OS QUERANDIS E A PRIMEIRA BUENOS AIRES: 
uma lição sobre a arrogância europeia

Luis Marcelo Santos 21  *

O  início da  história desta famosa capital argentina, terra do tango, berços de personalidades como o atual papa Francisco, entre outras; é uma dentre outras mostras de como as populações nativas da América tanto foram cruciais para a sobrevivência dos invasores europeus que aqui se instalaram, como também em nada foram submissas à prepotência destes. 
Pois quando o explorador espanhol Pedro de Mendonza fundou sua vila de Santa Maria del Buen Aire, em janeiro de 1535, ele muito se apoiou na ajuda prestada pelos Querandi, uma entre várias outras tribos Charruas que habitavam a região. Os quais, por algum tempo, com muita boa vontade, forneceram víveres essenciais a estes colonos. Até que ao fim de 15 dias os mesmos Querandis, por razões que desconhecemos decidiram não mais colaborar. 
Um auxílio do qual Mendonza entende que não pode abrir mão e por isso não hesita em mandar alguns homens irem atrás de seus antigos aliados para lhes exigir a continuação dos fornecimentos. Algo que apesar de toda a arrogância e prepotência destes estrangeiros, os Querandis não se intimidaram, rapidamente expulsando com pauladas estes que os viam como meros serviçais.
Uma afronta que o orgulho europeu diante do que eles viam como apenas animais selvagens a serem postos em sua devido lugar, não permitiria passar em vão. Imediatamente mandando uma força 300 soldados espanhóis que não esperavam encontrar cinco mil indígenas dispostos a lutar tanto quanto eles. Algo que as forças comandadas pelo irmão de Pedro, Diego Mendonza, confiavam poder dar conta com todo o seu poder de fogo. 
Em parte, até que verdade, considerando que mil Querandis perderam a vida no confronto. Assim como o próprio Diego e outros 26 homens. O que, apesar das baixas muito menores do lado  europeu, gerou um grande trauma aos espanhóis esse episódio em que seus oponentes compensavam a inferioridade bélica com maior coragem e determinação.
Tanto que nos 04 meses que se seguiram, os Querandis continuam a investir contra os espanhóis em sua vila de Buen Aire. Além do medo de suas lanças e boleaderas, a fome que castiga a estes aventureiros, precisando ter que roer até o couro de suas roupas para amenizar o desespero de tamanha desnutrição. 
Afinal, eles não podiam mais contar com a assistência nativa para obterem o sustento minimo nestas terras. Nisso, aonde ficaria a pretensa superioridade branca, europeia? Incapazes de não morrerem de fome, apesar de se orgulharem terem melhores armas (inclusive para caçar) e saberem plantar. Confinados entre muralhas de barro, indefesos por mais que negassem esta fragilidade. Um crepúsculo patético que os Querandis decidiram encerrar de vez, quando aliados a outras tribos Charruas, formando uma força de 23 mil homens, desferiram o ataque final. 
Rapidamente se vendo barcos, casebres, inimigos completamente destruídos. Duas mil e quinhentas almas massacradas no vilarejo. Apenas 560 fugitivos, incluindo Mendonza, conseguem sobreviver para relatar o ocorrido. Fazendo com que o orgulho lhes cegue à coerência. Pois novas investidas se repetem, sendo todas repelidas pelas forças charruas.
As quais, inclusive, logo se apropriam da novidade de cavalos introduzidos por estes invasores. Fazendo-se ainda mais temidos como cavaleiros invejáveis, tanto como os seus descendentes gaúchos, vaqueiros indomáveis que valorizam apenas a bravura e a habilidade viril. Prova viva que a bravura charrua não pode ser exterminada, precisando ser lentamente assimilada. Ainda assim como uma força independente que os governos centrais do Brasil, Argentina e Uruguai nunca conseguiram de todo submeter.
Paralela a esta resistência, somente depois de quase 50 anos uma nova Buenos Aires será erguida no mesmo lugar. Isso com a ajuda de 76 colonos e outras 200 famílias de índios guaranis. Novamente  possível somente pela boa vontade do elemento nativo que apesar de poder fazer o contrário, mostra uma admirável disposição para o bom convívio com o arrogante invasor que se coloca estupidamente como dono de um espaço que nunca foi seu.




* Luis Marcelo Santos é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba).