terça-feira, 22 de novembro de 2011

Registro Histórico sobre o Sindicado dos Trabalhadores Rurais de Matelândia

Por: Karine Albano 14, em

A acadêmica do curso de História Karine Albano realizou seu trabalho de conclusão de curso sobre o registro Histórico sobre o sindicato dos trabalhadores rurais de Matelândia, teve como objetivo relacionar os fatores que culminaram na formação do movimento sindical dos trabalhadores rurais de Matelândia. E a partir disso, foi elaborada uma discussão historiográfica do Sindicato de Matelândia a partir de fontes orais, para assim compreender a dinâmica e formação do Sindicato de Matelândia em relação ao contexto nacional; entender como funciona as relações do Sindicato, objetivos, políticas e comprometimento com a classe agrícola do Município. Assim, o estudo está direcionado a questão da formação, fundação e importância do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, para a cidade de Matelândia, ressaltando a partir de depoimentos orais, a sua atuação como um órgão de representação da Agricultura familiar no Município.
Essa pesquisa foi elaborada em decorrência das discussões realizadas na faculdade sobre a questão da formação dos Sindicatos no Brasil, e devido aos questionamentos que surgiram a partir de uma pesquisa acadêmica realizada no segundo período do curso de História sobre o Sindicato. Além disso, por ser descendente de família de agricultores, algumas práticas e conversas no ambiente familiar sobre Sindicato, Pronaf, Contag, causaram-me um maior interesse em saber sobre a questão do sindicalismo. No entanto, outro fator de suma importância na escolha dessa temática está vinculado à História Local, pois, algumas pessoas que moram em cidades maiores, ou até mesmo, que não conhecem a História de uma cidade menor, pensam que um Município de pequeno porte não tem História para ser registrada. Além disso, após um levantamento de dados sobre obras escritas sobre Matelândia, foi possível verificar que existem poucas fontes escritas sobre o contexto histórico da cidade.
Além da fonte escrita, foi utilizada no artigo a fonte oral temática, buscando compreender a participação e atuação de cada entrevistado no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Matelândia. Essas entrevistas foram pensadas a partir da temática do artigo, que é propor um registro ou documento, que pudesse estar armazenando a memória, a experiência de vida de algumas pessoas vinculadas ao Sindicato. Com relação à elaboração dos questionários das entrevistas, para cada entrevistado foi elaborado questões diferentes, pois cada um atuou de maneira diferenciada no Sindicato. Além disso, as entrevistas na maioria foram transcritas e utilizadas a partir da maneira em que foram gravadas.
            Portanto, foi entrevistado o fundador do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Matelândia, o Senhor Miguel Steinmacher, que faleceu algum tempo depois da entrevista. Nessa entrevista o roteiro elaborado esteve relacionado a compreender como, onde, quando e por que da construção do Sindicato em Matelândia. Além disso, foram entrevistados outros dois presidentes, que assumiram a diretoria do Sindicato após a saída do Senhor Miguel, o Senhor Emilio Romoaldo Sobjak, que também foi presidente e o Senhor José Bucoski, o atual presidente. Nessa entrevista foi discutida qual a função e a importância do Sindicato para essa cidade.
Além disso, foram realizadas entrevistas com os agricultores associados ao Sindicato, como é o caso do Senhor José Lamperti, a Senhora Tereza Borges Albano e seu filho José Antonio Albano, os quais são associados ao Sindicato há muito tempo e a partir das entrevistas foi possível fazer uma relação entre a teoria e a prática, ou seja, saber se o discurso sindical é aplicado aos trabalhadores rurais. Foram entrevistadas outras pessoas que trabalharam no Sindicato, como é o caso da Senhora Ivone Lorini que trabalhou por 16 anos no Sindicato e o senhor Luiz Carneiro que atuou na diretoria do Sindicato por 17 anos e hoje trabalha no Banco Cresol, que também está relacionado ao Sindicato de Matelândia.
A partir disso, o desenvolvimento dessa pesquisa esteve voltado a analisar e registrar os possíveis fatores que ocasionaram a formação e a fundação dessa instituição no Município de Matelândia. E com isso, estar elaborando material que preserve a História do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Matelândia, ou seja, a História Local.
Sendo assim, a partir do artigo, foi possível analisar que organização sindical apresenta características formadas em decorrência da realidade econômica, política, cultural, ideológica e social nos diferentes períodos da História. Porém, a partir do século XIX, devido à implantação e desenvolvimento do capitalismo, o movimento sindical será mais intenso, em decorrência das características lucrativas e de exploração que o sistema passa a exercer. Um exemplo disso se refere à criação dos Sindicatos, vinculados ao processo de reivindicações da classe operária.
Na História do Brasil, a terra é um fator decisivo nas articulações, políticas, projetos e na economia do país. Nos quadros políticos da Era Vargas, onde se nota uma maior articulação de movimentos sindicais, a busca por maiores rendas e em conseqüência a modernização do campo, contribuíram para que o camponês, e o trabalhador rural, se aproximassem ainda mais da questão de proletariado rural, ou seja, por mais que o trabalho do camponês e do trabalhador rural tivesse contribuído de forma significativa ao abastecimento dos gêneros alimentícios, o seu modo de produção não estaria mais adequado a satisfazer a demanda do período que segue 1960, e o resultado seria se tornar trabalhador das grandes propriedades rurais, recebendo em troca o salário. A partir disso, é possível analisar que “os movimentos sociais no campo no Brasil têm início em fins do século XIX e início do século XX, e teve como fator desencadeante o monopólio da posse da terra e a crise dos vínculos de dependência pessoal e do próprio campesinato” (SILVA, 2008, p.52). E a partir disso, foi possível analisar que o sindicalismo no Brasil, esteve vinculado a diferentes ideologias e princípios, a partir do Partido Comunista e a Igreja Católica, que foram elementos fundamentais tanto na manifestação quanto na ordem. 
Com relação à Matelândia, o processo de domínio ou posse de determinadas áreas nesse município, no Paraná, enfim, até mesmo a nível mundial, culminou na formação e articulação de movimentos reivindicatórios, ou seja, Sindicatos dos Trabalhadores Rurais. Partindo dessa idéia, é possível verificar que no meio rural, os STRs surgem como uma instituição sem fins lucrativos, para atender as necessidades, enaltecer os direitos e deveres de cada sócio, ou membro do sindicato. Porém são mantidos pelos agricultores.
Em Matelândia, a partir das entrevistas com os associados e com o fundador do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Matelândia, observou-se que a História do Sindicato teve início com as movimentações e preocupações do Senhor Miguel Steinmacher.Esse homem, além de iniciar e lutar pelos direitos do trabalhador rural foi presidente do Sindicato por dezessete anos. E durante uma entrevista realizada com o Senhor Miguel, no dia 13 de setembro de 2008, foi possível conhecer os fatores que culminaram na formação dessa instituição em Matelândia.
Foi possível verificar que o movimento sindicalista nesse município possui suas raízes entrelaçadas à visão paternalista da Igreja, com relação ao “abandono” do homem do campo. E assim, houve a necessidade de criar um órgão ou encontrar alguém que o amparasse. (SILVA, 2006, p.331).
Alguns dos fatores que incentivaram o Senhor Miguel ir em busca de informação com relação à questão sindical parte da questão que os agricultores do município de Matelândia pagavam o FUNRURAL, que era uma taxa de produção que ia para o governo que deveria voltar para o agricultor em forma de convênios com os hospitais da cidade. No entanto, não estava sendo utilizado. Porém, o Senhor Miguel apenas “descobriu” sobre esse benefício a partir de um acontecimento pessoal, que ele não revelou na entrevista feita no dia 13 de setembro de 2008. Somente em uma entrevista realizada com a sua filha, a Aparecida Steinmacher, no dia 03 de julho de 2011, ela afirmou que um dos principais fatores que levaram o Senhor Miguel a fundar o Sindicato está relacionado a um fato que aconteceu com sua esposa, Ana, que passou por um quadro muito difícil de saúde, e que recebeu os cuidados médicos somente em Cascavel, e teve que pagar por esse atendimento.
Porém, o Senhor Miguel ficou sabendo que havia como encaminhar sua esposa por meio de cartas e auxílio do Sindicato. No entanto, em Matelândia, não havia sindicato nesse período. Desta forma, segundo Aparecida, o Senhor Miguel fez um “pacto com Deus”, se sua esposa fosse atendida e melhorasse com toda a assistência que recebeu do Sindicato de Cascavel, ele iria trazer para a população de Matelândia, os mesmos recursos que recebeu e que era de direito de todo o contribuinte do FUNRURAL. Em Matelândia, como foi discutido anteriormente, economia era baseado nas atividades agrícolas, principalmente a partir da agricultura familiar, onde o trabalho de plantio, colheita e venda era feito a partir da mão- de –obra familiar, e a venda dos produtos comercializados, gerava a taxa do FUNRURAL.
Sendo assim, à formação do Sindicato de Matelândia, de acordo com o Senhor Miguel Steinmacher, foi ocasionado pela falta de proteção e auxílio a esse grupo. Além disso, a taxa do FUNRURAL paga nesse período, não estava sendo utilizada pelo trabalhador. Desta forma, o Senhor Miguel parte na defesa do trabalhador, questionando a taxa do FUNRURAL. A briga do Senhor Miguel não era apenas com relação à assistência ao trabalhador rural, mas também por se tratar de um direito.A oficialização do Sindicato dos trabalhadores Rurais de Matelândia teve início a partir de 1971, quando a carta sindical, que reivindicava a formação de um sindicato em Matelândia foi reconhecida pelas federações do governo.
Depois do episódio de fundação, o Sindicato passou a funcionar com sendo uma espécie de posto de saúde, Miguel conseguiu trazer por meio dos convênios os ambulatórios, dentistas, laboratórios, e construiu um espaço para o Sindicato. A partir disso, na entrevista o Senhor Emilio Sobjak, afirmou que o Sindicato iniciou como sendo um posto de saúde para o agricultor que trabalhava com veneno, fumo, e para as outras doenças que o trabalho ocasionava.
Assim, o Sindicato atuou como um Hospital Naturalista, onde servia de repouso e recuperação para os trabalhadores que vinham com problemas de intoxicação, ou qualquer doença. Eram tratamentos com ervas, com barro, com água. Porém, tudo isso teve fim, quando aconteceu um incêndio, e destruiu quase todo o Hospital. O Senhor Miguel em sua entrevista disse que esse incêndio foi intencional, porém não entrou em detalhes com relação aos fatores que causaram o incêndio e nem mesmo quem havia provocado o ocorrido. Vale ressaltar que, devido ao fato dos Sindicatos dos trabalhadores rurais terem se articulado durante a ditadura militar, essa instituição não podia atuar como um órgão de reivindicação do trabalhador rural.
Após algum tempo para a reconstrução do Sindicato, essa instituição passou a funcionar como órgão de reivindicação e de auxilio as trabalhadores rurais do município, e não atuou mais como Hospital Naturalista. Atualmente, a partir das entrevistas com o Senhor Emilio Sobjak e o Senhor José Bucoski, foi possível verificar que uma das principais preocupações do Sindicato de Matelândia se refere à questão da Agricultura familiar, devido ao fato de ser essa parcela de toda a população, que de forma “simples”, porém necessária, produz a diversidade agrícola, ou seja, produção de vários tipos de alimentos, pra esse município.
Com relação a questão da Agricultura Familiar, foi estabelecida uma contextualização do Município com relação à quantidade de pessoas que vivem no campo hoje, com relação a percentuais anteriores. E assim, foi possível verificar que o município de Matelândia, teve em alguns períodos anteriores, o êxodo rural acentuado, onde houve um elevado índice de redução da população da zona rural, em decorrência da crise na produção do café, hortelã, e posteriormente em decorrência da mecanização do campo. Portanto, um dos questionamentos era compreender, quais políticas ou projetos estão sendo estabelecidos pela Prefeitura de Matelândia e pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais, para fixar no campo o restante do índice, ou seja, a família agricultora, principalmente, os jovens, filhos de agricultores que estão saindo do campo, para a cidade em busca de trabalho e estudo.
Desta forma, foi possível analisar que o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Matelândia, juntamente com outros Sindicatos, por meio do processo de reivindicação e manifestação conquistou alguns benefícios de auxilio e apoio ao agricultor e agricultora. Para as mulheres agricultoras, observa-se a questão do direito alcançado com relação à aposentadoria, auxilio maternidade e até auxilio viuvez. Além dos programas de reinvindiçao da aposentadoria, auxilio maternidade, entre outros, o Governo Federal, juntamente com a CONTAG, desenvolveram o PRONAF, que se refere ao Plano Safra da Agricultura Familiar, o qual tem por objetivo apoiar o desenvolvimento  rural sustentável e garantir a segurança alimentar,fortalecendo a agricultura familiar, por meio de financiamentos de agricultoras e agricultores. Além disso, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Matelândia desenvolve algumas parcerias com a prefeitura do município de Matelândia, pelo fato da população no campo, atualmente, ser constituída por grupos de famílias com pequenas propriedades.
Assim, o município de Matelândia desenvolve um programa conhecido como Turismo Rural na Agricultura Familiar (TRAF), que de acordo com a turismóloga Jully Anne Pereira, esse é um dos programas desenvolvidos pelo Turismo Rural, ou seja, existem outros segmentos, como o de aventura, ecológico. O TRAF é um seguimento voltado às propriedades de Matelândia onde a administração é feita pela família. Além disso, a prefeitura de Matelândia por meio da Secretaria Municipal da Agricultura, Meio ambiente e Desenvolvimento econômico, firmaram outras propostas para o desenvolvimento da Agricultura Familiar como, por exemplo, o Pomar da Família, onde os produtores recebem mudas de várias espécies de arvores frutíferas, para serem plantas nas localidades e propriedades, em que houve o desmatamento em decorrência do cultivo da soja.
A partir disso, mais interessante de todo esse processo, foi estar em contado com a prática da Fonte Oral, conhecer e aprender sobre fatos que estão tão próximos, porém, por falta de interesse e oportunidade, muitos não têm ou não teriam conhecimento sobre alguns detalhes dessa instituição. Um dos entrevistados, o Senhor Miguel Steinmacher, nome que não deve ser esquecido e nem mesmo apagado da memória dos sindicalistas do município, faleceu alguns anos após a entrevista realizada. Com o trabalho, foi possível registrar fatos que hoje podem ser revistos e analisados de outras maneiras. Esse é um trabalho aberto, e montado no intuito de ser melhorado durante outras especializações. Além disso, foi possível verificar a importância dessa instituição importante para o município de Matelândia, principalmente para os trabalhadores rurais, que até então não tinha nenhum material escrito ou registro histórico.
Sendo assim, atuação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais em Matelândia está relacionada a possibilitar políticas que venham a contribuir com subsídios para a manutenção da pequena propriedade, no caso em Matelândia, a Agricultura familiar. Essas políticas e projetos são conquistas dos agricultores após pressões e manifestações contra o Governo.